GARDENIA

My journal

A dor?

      Eu compreendo os momentos que a dor atua. Quando esta aperta nossas vísceras, de modo a expurgar todos os sentidos; dificultar toda a respiração. Eu entendo o despertador do desespero, que vos expulsa do luto confortável aos prantos, manhã após manhã. Compreendo o coração que quer saltar pela boca, e todo conforto desconfortável na alma afogada num mar de aflições. Eu entendo, eu conheço, menino, a dor. Eu estive lá, eu estou lá. 
      (Você) Tenta livrar-se dela como um intruso, visita recusável, condição repreensível; tenta atirá-la pela janela sem jogar-se; tenta enforcá-la sem sufocar-se; tenta envenená-la e salvar-se; tenta cortá-la e curar-se. Em toda tentativa vã de destilar o soro da amargura de tuas veias, continua a soluçar em desespero. 
      Pensamos que precisamos morrer, mas só precisamos curar-nos; pensamos que não vamos sobreviver, mas só precisamos de alguns cuidados, alguns remédios para convalescer. 
                             

                                          Eu estive lá, eu estou lá, mas eu quero sair

      São muitas línguas, muitos estilos musicais, muita cultura, muitos gostos. São muitos rostos, muitas roupas, muitas tribos, muita identidade. Multi-personalidade. São muitos córregos, e muitos rios deságuam em mim. Eu corro os leitos, eu sou concomitante. Nós somos o oceano.
      São muitos, e eu, na inconsciência da verdade, busco por mim em todos. E nada mais sou, que o sonho abusivo sem autor.
      Expressar: buscar as palavras certas é cursar a trajetória correta e atingir o alvo. Ideias, emoções…
      A cultura é campo delimitante, é veículo material. Não sou preferência, ou gosto; se sou causa, não efeito. A memória da civilização são as escrituras do sentimento, e a matéria perdida não se grava no pensamento. E se tenho que me redescobrir na delimitação, na margem dos sonhos que circunvagam; não sou nada, eu reinvento. Não sou nada, não sou nada.

Retrato de realidade

      Em palavras da vida, entaladas e cinzeladas em lamúrias perdidas, em mãos, olhares e flashes que se entulham em minha memória, se transviando por entre os cenários. Espaço e tempo desconfigurados com meus anseios ardentes, que queimam e impulsionam movimento qualquer. Durante dias, vagueando por diálogos em vil tentativa de discernir real e fantasia. 
      Um retrato perdido num espaço de coordenadas conhecidas. Eu sei chegar lá, por onde ando e onde estou. Um eu em mim, firme e conhecedor; um eu que cresceu e se formou, vem me acolher em presença acesa. Eu em mim.

  Eis a razão de viver bem consigo mesmo: tudo passa, pois somos viajadores do Universo, porém só nós viveremos eternamente com nós mesmos. 

                                             -Hammed

Um Sublime Alguém

     Ninguém poderá carregar o fardo de suas dores. Eduque-se com o sofrimento.
     Ninguém lhe entenderá os problemas complexos da existência. Exercite o silêncio.
     Ninguém seguirá com você indefinidamente. Acostume-se com a solidão.
     Ninguém acreditará que as suas aflições sejam maiores do que as do vizinho. Liberte-se delas com o trabalho de auto-iluminação.
     Ninguém responderá pelos seus erros. Tenha cuidado no proceder.
     Ninguém suportará suas exigências. Adira à brandura e à simplicidade.
     Ninguém o libertará do arrependimento após o crime. Medite na paciência e domine os impulsos.
    Ninguém compreenderá seus sacrifícios e renúncias para a manutenção de uma vida modesta e honrada. Persevere no dever bem cumprido.
     Sábio é todo aquele que reconhece a infinita pequenez ante a infinita grandeza da vida.
     Embora ninguém possa servi-lo sempre, você encontrará um sublime alguém que tem para cada anseio da sua alma uma alternativa de amor.

                                                       Divaldo Franco
                                                        Marco Prisco

     Eu poderia namorar seu ser, deitar a beira da praia e escutar a luz; desfazer-me de sentidos-cérebro. 
     Eu conheço o mundo real, aquele que não interpreto por informações falhas. O subjetivo é a única noção de realidade que cada um vai, alguma vez, aprender. 
     A objetividade não passa de uma farça para seguirmos os passos dos malsucedidos. A criatividade nunca foi linear, e as inovações não nascem de receitas antigas. Repetimos as fórmulas, não reeinventamos as ordenadas da vida.
     Podamos para crescer. Mutilar é escolha de loucos, que te reprovam ao constatar os dogmas que os fream.    

Sentimentos

     A pena é dirigida pelo sentimento. Ele desenha a dor e o vento do entardecer; ele liberta o caos e expande o ser; rola montanha abaixo, como a curso das lágrimas; desamarra raízes como os cabelos ao céu, defrontados pelo fluxo da atmosfera. 
     Eles caminham, eles não moram nas palavras.. se quer passam pelas sinapses do momento. Curiosos, fogem de mim para tocar o outro, e é assim que vos escrevo. 

É belo modelar uma estátua e dar-lhe vida, mas é sublime modelar uma inteligência e dar-lhe liberdade.

—Victor Hugo